segunda-feira, 23 de agosto de 2010

♥


vem, me faz um carinho
me toque mansinho
me conte um segredo
ou me enche de beijos.

melhor forma não há pra provar meu amor.
eu te presto atenção,
tento ser sua flor.

vem, te faço um carinho
eu te toco mansinho
te contro um segredo
ou te encho de beijos.


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

sincronicidade II

- quer que compre alguma coisa pra gente comer? só trouxe batata ruffles que você pediu.
- não, não precisa. cê tá com fome?
- não... e copo, onde vamos comprar copo?
- mas pra que? compramos coca-cola e bebemos na latinha mesmo.
- eu tinha separado duas tacinhas pra gente, mas esqueci na mesa antes de sair.

(...)

- é normal ter aquela fase de querer experimentar tudo, não ter muito apego às coisas. mas a fase tem que passar. não dá pra viver pra sempre bêbada caída por aí.
- claro! e temos que priorizar algumas coisas. como os relacionamentos...
- não dá pra sair por aí atirando pra todos os lados e se desgastando com o que já nasce fracassado. só me relaciono com quem vai me acrescentar alguma coisa. pode parecer prepotência ou soar como arrogância, mas não é, não mesmo.
- é se valorizar.
- isso, é se valorizar. isso que eu demorei, mas aprendi.
- meu tempo é pouco. o tempo é pouco, sabe? tenho casa, família, trabalho, estudos. o tempo que tenho é pra estar ao lado de quem me faça ter vontade de sorrir junto. como agora.

(...)

- sexo é imaginação, é só imaginação.
- é sim, e dá pra se virar sozinho sem precisar fazer com alguém que nem se lembre o nome no outro dia. o corpo é... sagrado.
- é! é o templo, o nosso templo. acho a banalização do sexo tão lamentável. se é bonito, se rolou atração, se nem trocaram duas palavras ainda, já vão transar.
- e amanhã? e o vazio?
- e pra quem você liga, de quem sente falta? beleza não é tudo. aliás, não é nada. é efêmera demais. tudo isso é efêmero demais.
- é. o que fica é isso aqui. o sentimento.

(...)

- você gosta de chocolate?
- amo!
- então guarda. e come em casa, pra lembrar de mim. tudo de uma vez.
- um por um. pra ser mais longo e mais doce.

(...)

- vou agradecer à quem nos apresentou.
- era pra ser assim. parece que tinha que acontecer, do jeito que aconteceu.

(...)

- queria dormir de conchinha com você.
- eu também queria, hmm.
- posso te levar em casa?
- claro.

(...)

- me liga quando chegar, tá?
- te ligo. mil beijos.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Reflections of a Skyline




"E eu quero brincar de esconde-esconde, te emprestar minhas roupas, dizer que amo seus sapatos, sentar na escada enquanto você toma banho, e massagear seu pescoço. E beijar seu rosto, segurar sua mão e sair p'ra andar. Não ligar quando você comer minha comida, e te encontrar numa lanchonete p'ra falar sobre o dia. Falar sobre o seu dia e rir da sua, sua paranóia. E te dar fitas que você não ouve, ver filmes ótimos, ver filmes horríveis. E te contar sobre o programa de TV que assisti na noite anterior e não rir das suas piadas. Te querer pela manhã, mas deixar você dormir mais um pouco. Te dizer o quanto adoro seus olhos, seus lábios, seu pescoço, seus peitos, sua bunda. Sentar na escada, fumando, até seus vizinhos chegarem em casa, sentar na escada, fumando, até você chegar em casa. Me preocupar quando você está atrasado, e me surpreender quando você chega cedo. E te dar girassóis e ir à sua festa e dançar. Me arrepender quando estou errado e feliz quando você me perdoa. Olhar suas fotos e querer ter te conhecido desde sempre. Ouvir sua voz no meu ouvido, sentir sua pele na minha pele, e ficar assustada quando você se irrita. Eu digo que você está linda, e te abraçar quando você estiver aflita, e te apoiar quando você estiver magoada, te querer quando te cheiro, e te irritar quando te toco e choramingar quando estou ao seu lado. E choramingar quando não estou. Debruçar-me no seu peito, te sufocar de noite e sentir frio quando você puxa o cobertor e sentir calor quando você não puxa. Me derreter quando você sorri, me desarmar quando você ri. Mas não entender como você pode achar que estou rejeitando você quando eu não estou te rejeitando, e pensar como você pôde pensar que eu te rejeitaria. E me perguntar quem você é, mas te aceitar do mesmo jeito. E te contar sobre o 'tree angel', 'o menino da floresta encantada' que voou todo o oceano porque ele te amava. Comprar presentes que você não quer e devolvê-los de novo. E te pedir em casamento, e você dizer 'não' de novo mas continuar pedindo, porque embora você ache que não era de verdade mas sempre foi sério, desde a primeira vez que pedi. Ando pela cidade pensando. É vazio sem você mas eu quero o que você quiser e penso. Estou me perdendo, mas vou contar o pior de mim e tentar dar o melhor de mim porque você não merece nada menos que isso. Responder suas perguntas quando prefiro não responder, e dizer a verdade mesmo que eu não queira, e tentar ser honesto porque sei que você prefere. E achar que tudo acabou, espera só mais dez minutos antes de me tirar da sua vida. Esquecer quem eu sou e me deixar tentar chegar mais perto de você. E de alguma forma, de alguma forma, de alguma forma compartilhar um pouco do irresistível, imortal, poderoso, incondicional, envolvente, enriquecedor, agregador, atual, infinito amor que eu tenho por você."

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

pra machucar os corações.


(do blog Caio F Caio)


Para quem tem mais de 30, 35 anos, este disco pode ser uma tortura. Não, não é que seja um mau disco. Eu explico. Ou tento.
É que fatalmente eu/tu/ele/nós vamos lembrar. E não estou certo se essas lembranças serão boas. Ou se seriam boas, lembradas hoje, você me entende? Porque o tempo passado, filtrado pela memoria e refletido no tempo presente – agora -, parece sempre melhor. E terá mesmo sido?

Apenas, quem sabe, porque não havia fadiga lá. Aquela fadiga que se insinua, persistente, entre o ruído das buzinas e das descargas abertas nos engarrafamentos de trânsito, todo dia. Ou essa, de atravessar mais uma vez qualquer avenida às seis da tarde para, de repente, olhar a multidão também fatigada e preguntar: mas que cidade, afinal, é esta. E que vida? A quase amável, paciente fadiga de contemplar o grande relógio das repartições e escritorios, quase imóvel na sua lentidão, a partir das cinco e a caminho das seis da tarde. Para nos despejar, novamente, nas ruas entupidas de fumaça e desejos bandidos nas esquinas, dentro de carros apertados entre outros carros ou de ônibus apinhados – até o interior dos apartamentos, com seus fantasmas emboscados, uns mortos, outros vivos. E então o acúmulo de contas atrasadas, telefonemas ansiosos, telenovelas chatas, quem sabe algum plano, certas fantasias. Outra cidade, outro país, outro planeta, outra vida que não esta – uma memória de flores no cabelo e pés descalços, pouco antes do ruído do despertador e o do meu/teu/dele/nosso coração serem os únicos audíveis dentro da escuridão onde afundamos na lama de nossos sonhos mortos.

Mas eu falava – tentava – de um disco. De John Lennon.

Ele foi gravado ao vivo, no Madison Square Garden, a 30 de agosto de 1972. Há quase, portanto, 14 anos. Você tinha quantos – 15, 20, 25? E provavelmente também imaginava que, um dia, pudesse não haver mais guerras, nem países, nem ódio entre as pessoas. Um mundo novo, não é isso? Depois houve cinco tiros nas costas, e pouco antes, durante o depois, os muros das cidades pixados com frases como “flower-power is dead”. E então uma invasão de cabelos muito curtos, quase raspados, roupas negras, couro justo: a ridicularização de tudo em que você acreditou durante tanto tempo – e largou faculdade, largou família, caiu em bandos pelas estradas para sonhar com essa coisa que não aconteceu: um mundo novo. O deboche das suas antigas – e perdidas – ilusões. Patrício Bisso só sobe no palco para cantar qualquer coisa como “bolsa peruana? Sandália indiana? Hippie! Mata”. Eu rio, você ri, ele ri – nós rimos todos juntos. E temos um sutil cuidado em evitar, no vocabulário, no vestuário, qualquer detalhe capaz de nos identificar como sobreviventes daquele tempo. Agora somos mais do que modernos: demi-darks. Não temos fé, nem esperança, nem caridade. Bebemos vodca pura, cheiramos umas. Nunca mais compramos uma caixinha de incenso. E a bad-trip pinta sem química.

Tudo isso dói tanto. Eu nunca mais tinha ouvido John Lennon. O tempo corre, a gente vai descobrindo jeitos de se proteger. Elis? Nem pensar: põe aí a Paula Toller. Marc (quem lembra?) Bolan? De jeito nenhum, melhor um Boy George, cara. Let´s Roller. It´s only rock and roll. Só que eu nem sempre sei se gusto. Mas, por trás das defesas, esse vinco no canto esquerdo da boca continua avançando, cada vez mais fundo, cada vez mais longo. Você tenta reagir, sem dizer claramente não, pelo amor de Deus, não me dá esse disco pra ouvir, eu não entendo nada de música, eu não conheço John Lennon e nunca ouvi falar em Yoko Ono. Eu não tenho tempo. Não posso parar, nem pensar, nem sentir. Nem lembrar. Eu preciso ganhar dinheiro. Tenho pressa neste passo alucinado em direção ao buraco-negro do futuro.

Mas você acaba aceitando. Agora somos profissionais. Coloca no toca-discos, como quem não quer nada. Liga a TV, ao mesmo tempo. E no meio dos sons que vêm também da rua e dos outros apartamentos, de repente aquela voz tão antiga e conhecida grita:

- Mother!

Aumente o volume. Ou desligue para sempre, você me entende?

(Publicado no Estadão, Caderno 2, Domingo, 6 de abril de 1986)

terça-feira, 10 de agosto de 2010

acreditar.

.


Depois, penso também naquele quase velho poema do John Lennon: “I don’t believe in yoga/ I don’t believe in mantra/ I don’t believe in God/ I don’t believe in Freud/ I don’t believe in drugs/ I don’t believe in sex/ I don’t believe in Beatles” e termina com um acorde profundo de guitarra e um “I just believe in me”.
(Caio Fernando Abreu)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

das minhas palavras preferidas,

sincronicidade,
sintonia,
reciprocidade,
ternura,
aconchego,
chamego,
aninhar.


as surpresas.

"eu quis te conhecer
mas tenho que aceitar:
caberá ao nosso amor o eterno
ou o 'não dá'."
(Janta - Marcelo Camelo e Mallu Magalhães)


quando você não acredita em amor. quando você não faz mais planos parecidos com contos de fadas. quando não se imagina dizendo aquelas coisas bregas nunca mais. quando 'nunca' e 'sempre' passam a ter a mesma dimensão. quando acha tudo que as pessoas pensam sobre sentimentos pura ingenuidade. quando só quer trepar. quando anota números de telefones que nunca vai ligar. quando pensa em muita gente e não sente falta de ninguém. quando as pessoas só entram como luz passageira, como cometas. quando o céu é sempre escuro.
quando alguém te faz rir. e depois te faz sorrir. quando você passa seu número e dorme com o celular embaixo do travesseiro torcendo pra ser acordada por uma mensagem. quando o céu volta a ter uma lua que você observa e imagina se a outra pessoa já observou hoje. quando você tem vontade de andar de mãos dadas por aí. quando quer um único colo. quando sente saudades do que ainda não fez. quando diz sem parar coisas bobas e piegas. quando gosta da sensação que aquelas palavras causam. quando tem vontade de fazer amor. quando acha apelidinhos bregas a coisa mais delicada que já ouviu. quando suspira ao escutar aquela - só aquela - voz. quando fecha os olhos e faz planos. quando sonha dormindo, sonha acordada, sonha junto. quando um mês parece muito e a eternidade parece muito pouco. quando o som de uma única risada ecoa nos seus ouvidos por horas. quando nenhum medo é capaz de tirar as borboletas do estômago. quando você tem certeza que aquela coisa de pessoa certa faz algum sentido. quando mesmo que fosse a pessoa errada, continuaria fazendo todo sentido. quando você quer. e diz sim. e quando você sente algo tão bom que não pode ter nome, ninguém nunca nomeou porque certamente ninguém nunca sentiu. quando você aceita as surpresas, as brigas, o carinho, a proximidade distante. quando você decide ir em frente e pede, tão frágil: me dá a mão?

domingo, 1 de agosto de 2010

sincronicidade I

— é foda, né, cara. a vida. a vida é foda. dá pra arredar mais um pouco? tá meio apertado aqui. ah, brigadão. difícil conhecer gente que é gente boa mesmo, não é não? quase não conheço, mano. e eu mesmo não sou não. tenho amor por ninguém não. é foda isso também né, perder o amor né não? pois é, mas eu sou feliz sabe? sou feliz porque eu podia tá morto mas eu tô vivo. depois que as balas do meu tio acabaram, o cara meteu bala na fuça dele. e meteu bala na minha tia que tava escondida atrás do balcão lá do bar do meu tio. tentei correr sacou? mas não deu, o grandão já tava na minha cara e sentou o dedo. lembro dele correndo e que eu tentei correr mas não conseguia mais levantar. aí chegaram uns brothers e ficaram me falando 'pô, levanta aí, levanta aí que cê dá conta, mano'. só que não dei conta não, cara, e tô sem dar conta até hoje, tá ligado? já ouvi tu contando na avenida pros mano lá que foi acidente né velho? acidente é foda, né, cara. a vida é meio que um acidente, cê não acha não? pô, eu acho. tô achando agora. foi meio que um acidente eu estar no bar e não levantar mais, tá ligado? mas é Deus né e com Deus a gente não discute. já discuti, mas não deu em nada nada. essa cadeira sua é meio ferrada não é não? tá vendo essa aqui? consegui de uma dona que comprava as blusa lá comigo na avenida. joguei uma idéia nela e ela falou 'ó dinheiro que não dou não, mas me dá seu telefone que te arrumo uma cadeira nova'. e ela arrumou, mano, isso foi numa quinta-feira. na segunda eu fui com ela escolher a cadeira. entramo na loja e começou a descer cadeira doida demais, até motorizada sacou? mas motorizada não dá pra nós que vive a vida dura né não. aí peguei duas, velho, a dona me deu duas. falando nisso a outra é bonitona e tá lá em casa, só soltou essa parada aqui ó. cê tá ligado de onde arruma? me passa seu telefone aí que vou dar a outra cadeira lá pra você que você é brother que eu tô ligado. te vejo conversando com os brother lá na avenida e sei que você é bicha mas isso não ligo não, sacou? eu sou homem e pego umas mina aí quando rola, lá no sarah eu pegava mina demais. tinha uma lá de macacos que tinha um rabão tá ligado? homem também olha o rabo dos homem? estranho isso né não? tudo é rabo. mas me passa seu telefone aí que eu vou te arrumar a outra cadeira lá, falou? quer dizer, anota o meu aí também, é esse aqui ó. e é isso aí, velho, Deus abençoa você e sua casa lá. força aí, velho. que a vida é assim mesmo.

meu lado Tati Bernardi.





"Só ele conheceu uma mulher corajosa que admitiu todos os medos, todas as neuroses, todas as inseguranças, toda a parte feia e real que todo mundo quer esconder com chapinhas, peitos falsos, bundas falsas, bebidas, poses, frases de efeito, saltos altos, maquiagem e risadas altas. Ninguém nunca me viu tão nua e transparente como você, ninguém nunca soube do meu medo de nadar em lugares muito profundos, de amar demais, de se perder um pouco de tanto amar, de não ser boa o suficiente. Só ele viu meu corpo de verdade, minha alma de verdade, meu prazer de verdade, meu choro baixinho embaixo da coberta com medo de não ser bonita e inteligente. Só para ele eu me desmontei inteira porque confiei que ele me amaria mesmo eu sendo desfigurada, intensa e verdadeira, como um quadro do Picasso."

sábado, 17 de julho de 2010

as mulheres que não se apaixonam.

dizem que os homens não se apaixonam. que não fazem planos à longo prazo ao lado de alguém (ainda que esse alguém seja a mulher com quem namora há 2 anos e 7 meses). que não perdem o sono ou o apetite depois de uma briga de relacionamento. que não ficam ansiosos esperando por uma ligação no dia seguinte. que não sentem o coração doer depois de um término. que não há hipótese de flexibilidade alguma caso vá ferir seu ego. que não misturam sexo e amor. que não se envolvem totalmente, não se doam por completo.
e não posso fingir que é visão de mulher mal amada, não posso romantizar a coisa por completo - é assim mesmo, desse jeitinho, minuciosamente.
mas sabe que eu fiquei pensando que, ao contrário do que repito todos os dias, não sou tão azarada assim? já conheci (e amei, e tive comigo, pra mim, por mim) um homem que era exatamente o oposto desse clichê. ok, talvez não fosse uma questão de sorte, talvez fosse um encontro marcado pelo destino, talvez fosse a minha alma gêmea, talvez fosse a adolescência e seu mundo de fantasias... talvez fosse azar. porque conhecer, amar e ter um homem assim e perdê-lo, só pode ser azar. ou burrice. no meu caso, ambos.
ele era lindo. tinha o sorriso safado, o abraço envolvente e o olhar apaixonado. me escrevia cartas à lápis e depois passava a caneta por cima, pra letra ficar mais bonita. tinha uma foto minha em um porta-retrato enorme no quarto. deixava tão óbvio pra todo mundo a paixão que sentia que por vezes me envergonhava.
era ele quem ligava depois de uma briga. ignorava a maioria dos meus defeitos, ria pra esquecer de outros. não conseguia comer nem dormir direito se estivéssemos brigados. não tinha vergonha de chorar na minha frente, de dizer que estava triste, de pedir desculpas.
ele me dava presentes fora de época. elogiava todas as mudanças do meu cabelo e debochava das minhas roupas de oncinha. me beijava com carinho. me beijava com tesão. me beijava com saudade, vontade, urgência, tudo assim ao mesmo tempo.
sabia o ponto fraco do meu coração e conhecia ainda melhor os pontos fracos do meu corpo. me deixava arrepiada em poucos minutos. fazia amor gostoso, fazia sexo melhor ainda. e me abraçava e fazia carinhos depois. gostava do meu corpo exatamente como ele era, quando os quilinhos estavam a mais ou a muito menos.
e quando apareceu uma provável gravidez indesejada, ele chorou abraçado à mim. e logo depois fez carinho na minha barriga e disse que tudo ficaria bem. escolheu nomes, cuidou da minha alimentação e conversou com o bebê antes do "positivo". e chorou todas as lágrimas do mundo pelo "negativo". fez planos de filhos, casamento, amor eterno.
eu era uma princesa que não podia chorar, uma pessoa inteligente da qual ele se orgulhava, uma mulher gostosa que ele devorava com os olhos.
vocês devem estar se perguntando onde está esse homem, por que raios não estamos juntos ou querendo o telefone dele imediatamente. sinto informar: esse homem morreu. e fui eu quem matou.
se quiserem, posso dar o contato de um cara muito lindo, gostoso e com a pegada ótima. mas que não se apaixona, não faz planos, não confunde sexo com amor, não vai te ligar no dia seguinte e não vai permitir em hipótese alguma se envolver.
mas acho que desse tipo vocês já conhecem aos montes, não é?

sexta-feira, 16 de julho de 2010

respostas.

- o que sustenta toda essa força? o que se esconde atrás de tanto mistério?
- força? mistério? hmm.
muita fragilidade. e um coração.
cadastrei uma mulher que se chama Delícia, dia desses.
Delícia, gente. o nome dela é Delícia. tô morrendo de inveja até agora. imagina só, todo dia, alguém te dizendo: - Bom dia, Delícia! e isso não soando como uma putaria bem das sem graça.
ou um "Que saudade, Delícia..." no meio de um abraço fofinho. ou um "Oi, Delícia" com aquele olhar safado.
imagina você saindo do Ensino Médio, com aquelas camisetas de formandos bem das ridículas, escrito atrás em letras garrafais: DELÍCIA.
preenchendo uma ficha de emprego: Nome - Delícia. pronto, a auto-estima já tá nas alturas.
na balada um cara te fala "E aí, delícia?" e você pensa "De onde conheço esse aí, hein?!"
vai jurar que o bofe lembra de você, que não é só mais uma cantadinha barata, óbvio.
adorei.

inveja eterna dessa tal de Delícia viu.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

tudo.

sempre pensei que se algum desejo me fosse concedido por (insira aqui sua figura mística preferida), não saberia o que pedir. eu quero tudo. sempre quis tudo. e esse "tudo" é tão amplo e tão inalcançável que sempre espanta quem se aproxima das minhas vontades.
hoje eu só consigo pensar que quem quer tudo, acaba ficando sem nada.
é... esses ditados populares idiotas acabam tendo algum sentido.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

porque senti o coração apertando.

"Não deixar principalmente que entrem dentro de ti e queiram arrancar isso que está aqui, entendeu? - levou uma das mãos até o coração."


"Você fica pesando as médias que faz todos os dias, para poder sobreviver. O saldo é meio amargo."


"Vontade de não saber perdoar, de não ser compreensivo, tolerante — de não me contentar com o pouco — 'amor malfeito, depressa, fazer a barba e partir'."


"É uma atriz, tão menina, e de vez em quando umas entonações sabidas de balzaquiana, ironias de diva, charme de gatinha."


"Pudesse abrir a cabeça, tirar tudo para fora, arrumar direitinho como quem arruma uma gaveta. Tomar um banho de chuveiro por dentro."


"Desculpe mas foi só mais um engano? E quantos ainda restam na palma da minha mão? Ah, me socorre que hoje não quero fechar a porta com essa fome na boca."


"Deve haver um porto."

"tomar um banho de chuveiro por dentro".

não queria conviver com o mundo hoje. pedir o trident de hortelã na loja da esquina, andar escutando a mesma música até o ponto, lembrar das coisas que aconteceram enquanto morei tão perto dali. ver o ônibus chegar, torcer pra ter espaço pra sentar, ver que não tem, ficar puta porque velhinhos ficam em pé enquanto patricinhas ficam sentadas, desligar o pensamento durante o percurso. descer no mesmo ponto cheio de sempre, parar naquele sinal que quase nunca tá aberto, olhar as pessoas andando rápido sempre correndo atrás de algo, - boa tarde!, 12º andar, ouvir o som dos meus passos naquele corredor enorme, - boa tarde!, sorrir, escutar assuntos idiotas, falar coisas que não sinto, fingir uma força que não tenho, participar daquelas coisas das quais eu sinto nojo, me enganar enquanto abraço quem não me abraça, ter vontade de fugir o tempo inteiro.

só queria ficar quieta, me arrumar por dentro, organizar toda essa bagunça e esse amontoado de sentimentos desconexos e pesados. só queria ser eu - brincar com a capitu, fazer coreografias malucas ouvindo camarada d'água, cantar unwritten bem alto, ler e reler todos aqueles meus textos preferidos do Caio, não atender o telefone e nem a campainha, tomar sozinha o chá docinho que aprendi a fazer com a minha mãe.

é tão cansativa essa vida de 'não sentir'.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Cadê a tampa da minha panela, o chinelo do meu pé cansado, a metade da minha laranja?

Tá em ebulição, vazando, transbordando, e nada da tampa da panela pra socorrer a lambança. É culpa da pressão que eu ponho em tudo isso? É o que dizem: desencana que uma hora ele aparece.
O pé cansado já tentou calçar (à força) do chinelão que descola as tiras ao sapatinho de cristal. Nenhum serviu e o coitado tá todo esfolado.
Ninguém pra descascar, chupar ou fazer uma laranjada. Em compensação, laranjas na minha vida não faltam. E chega! Há anos peço o príncipe e só me mandam o cavalo.
Fim de ano sem amar é deprê, hein? Tô megera o suficiente pra ver uma família feliz no shopping e pensar que aquela instituição “image bank” não passa de uma união solitária de aparências. Tô megera o suficiente pra furar a fila do Papai Noel e pedir um pirulito, bem grande, bem grosso, bem exclusivamente apaixonado por mim.
Tô megera o suficiente pra abraçar os veadinhos do trenó em homenagem aos meus ex-casos. Tô megamegera o suficiente pra não admitir minha carência e dar uma risada debochada de todas as luzes, canções e emoções de boas-festas.
Tá, mas no especial do Roberto Carlos não vai dar pra ser megera. O filho da mãe sempre me faz chorar. É impressionante como a gente se sente sozinha na porra do especial do Roberto Carlos.
É claro que eu desejo o meu sucesso profissional, dinheiro, saúde, …, mas nada de atacar para todos os lados nas simpatias deste Reveillon. Não dá certo. Este ano vou focar no amor: calcinha vermelha, fitinhas vermelhas e as sete ondas vão ser puladas com a mão no coração (se eu usar a frente-única branca que comprei, é bom que a mão no coração já segura um peito) e uma só intenção: encontrar o danado.
Ah, sejamos sinceras mulheres modernas: no fundo, no fundo, a gente quer mesmo é alguém pra dormir protegida no peito (de preferência largo, forte e levemente cabeludo).
E nem é medo de ficar pra titia não, além de ter cara de mais nova e ser bem nova, eu sou filha única. É vontade de sentir aquela coisinha misteriosa de “é esse!”. Como será sentir isso? Eu sempre sinto que “pode ser esse, ou talvez com algumas mudancinhas possa ser esse ou talvez se ele quisesse, poderia ser esse…”. Não, isso tá errado. Quero sentir que “é esse”.
Dizem que materializar os sonhos escrevendo ajuda, então lá vai: quero transar com beijo na boca profundo, olhos nos olhos, eu te amo e muita sacanagem, quero cineminha com encosto de ombro cheiroso, casar de branco, ser carregada no colo, filhos, casinha no campo com cerquinha branca, cachorro e caseiro bacana. Quero ouvir Chet Baker numa noite chuvosa e ter de um lado um livrinho na cabeceira da cama e do outro o homem que amo.
Quero sambão com churrasco e as famílias reunidas. Quero ter certeza, ali no fundo da alma dele, de que ele me ama. Quero que ele saia correndo quando meu peito amargurado precisar de riso. Que ele esqueça, de vez em quando, seu lado egoísta, e lembre do meu. Que a gente brigue de ciúmes, porque ciúmes faz parte da paixão, e que faça as pazes rapidamente, porque paz faz parte do amor. Quero ser lembrada em horários malucos, todos os horários, pra sempre. Quero ser criança, mulher, homem, et, megera, maluca e, ainda assim, olhada com total reconhecimento de território. Quero sexo na escada e alguns hematomas e depois descanso numa cama nossa e pura. Quero foto brega na sala, com duas crianças enfeitando nossa moldura. Quero o sobrenome dele, o suor dele, a alma dele, o dinheiro dele (brincadeira…). Que ele me ame como a minha mãe, que seja mais forte que o meu pai, que seja a família que escolhi pra sempre. Quero que ele passe a mão na minha cabeça quando eu for sincera em minhas desculpas e que ele me ignore quando eu tentar enrolá-lo em minhas maldades. Quero que ele me torne uma pessoa melhor, que faça sexo como ninguém, que invente novas posições, que me faça comer peixe apimentado sem medo, respeite meus enjôos de sensibilidade, minhas esquisitices depressivas e morra de rir com meu senso de humor arrogante. Que seja lindo de uma beleza que me encha de tesão e que tenha um beijo que não desgaste com a rotina. Que a sua remela seja sequinha e não gosmenta e que o tempo leve um pouco de seu cabelo (adoro carecas…). Que suas escatologias não passem de piada e se materializem bem longe de mim. Tem que gostar de crianças, de cachorrinhos, da minha mãe, e tem que odiar ver pessoas procurando comida no lixo. Tem que dançar charmoso, ser irônico, ser calmo porém macho (ou seja, não explodir por nada mas também não calar por tudo). Tem que ser meio artista, mas também ter que saber cuidar dos meus problemas burocráticos. Tem que amar tudo o que eu escrevo e me olhar com aquela cara de “essa mulher é única”.
É mais ou menos isso. Achou muito? Claro que não precisa ser exatamente assim, tintim por tintim. Exigir demais pode fazer eu acabar sozinha em mais shows do Roberto Carlos. Deus me livre! Bom, analisando aqui, dá pra tirar umas coisinhas. Deixa eu ver… Resumindo então: tem que dizer que me ama e me amar mesmo, tem que rolar umas sacanagens e não pode ter remela gosmenta. Pronto!
E quando eu tiver tudo isso e uma menina boba e invejosa me olhar e pensar que “aquela instituição feliz não passa de uma união solitária de aparências” vou ter pena desse coração solitário que ainda não encontrou o verdadeiro amor.

(Tati Bernardi)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

aceito a condição.

deixo tudo assim,
não me importo em ver a idade em mim,
ouço o que convém.
eu gosto é do gasto.

sei do incômodo e ela tem razão quando vem dizer
que eu preciso sim de todo cuidado.

e se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz,
quem então agora eu seria?

ah, tanto faz. e o que não foi não é.
e eu sei que ainda vou voltar... mas eu quem será?

deixo tudo assim, não me acanho em ver vaidade em mim.
eu digo o que condiz. eu gosto é do estrago.
sei do escândalo e eles têm razão quando vêm dizer
que eu não sei medir nem tempo e nem medo.

e se eu for o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado?
ah, ora se não sou eu quem mais vai decidir o que é bom pra mim?
dispenso a previsão.
ah, se o que eu sou é também o que eu escolhi ser,
aceito a condição.

vou levando assim que o acaso é amigo do meu coração...
quando fala comigo, quando eu sei ouvir...
(Los Hermanos - O velho e o moço)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

- Capitu como vai?

Capítulo LXII - Uma Ponta de Iago.

A pergunta era imprudente, na ocasião em que eu cuidava de transferir o embarque. Equivalia a confessar que o motivo principal ou único da minha repulsa ao seminário era Capitu, e fazer crer improvável a viagem. Compreendi isto depois que falei; quis emendar-me, mas nem soube como, nem ele me deu tempo.
- Tem andado alegre, como sempre; é uma tontinha. Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança, que case com ela...
Estou que empalideci; pelo menos, senti correr um frio pelo corpo todo. A notícia de que ela vivia alegre, quando eu chorava todas as noites, produziu-me aquele efeito, acompanhado de um bater de coração, tão violento, que ainda agora cuido ouvi-lo. Há alguma exageração nisto; mas o discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se. Por outro lado, se entendermos que a audiência aqui não é das orelhas, senão da memória, chegaremos à exata verdade. A minha memória ouve ainda agora as pancadas do coração naquele instante. Não esqueças que era a emoção do primeiro amor. Estive quase a perguntar a José Dias que me explicasse a alegria de Capitu, o que é que ela fazia, se vivia rindo, cantando ou pulando, mas retive-me a tempo, e depois outra idéia...
Outra idéia, não, - um sentimento cruel e desconhecido, o puro ciúme, leitor das minhas entranhas.
Tal foi o que me mordeu, ao repetir comigo as palavras de José Dias: "Algum peralta da vizinhança." Em verdade, nunca pensara em tal desastre. Vivia tão nela, dela e para ela, que a intervenção de um peralta era como uma noção sem realidade; nunca me acudiu que havia peraltas na vizinhança, vária idade e feitio, grandes passeadores das tardes. Agora lembrava-me que alguns olhavam para Capitu, - e tão senhor me sentia dela que era como se olhassem para mim, um simples dever de admiração e de inveja. Separados um do outro pelo espaço e pelo destino, o mal aparecia-me agora, não só possível mas certo. E a alegria de Capitu confirmava a suspeita; se ela vivia alegre é que já namorava a outro, acompanhá-lo-ia com os olhos na rua, falar-lhe-ia à janela, às avemarias, trocariam flores e...
E... quê? Sabes o que é que trocariam mais - se o não achas por ti mesmo, escusado é ler o resto do Capítulo e do livro, não acharás mais nada, ainda que eu o diga com todas as letras da etimologia. Mas se o achaste, compreenderás que eu, depois de estremecer, tivesse um ímpeto de atirar-me pelo portão fora, descer o resto dai ladeira, correr, chegar à casa do Pádua, agarrar Capitu e intimar-lhe que me confessasse quantos, quantos, quantos já lhe dera o peralta da vizinhança. Não fiz nada. Os mesmos sonhos que ora conto não tiveram, naqueles três ou quatro minutos, esta lógica de movimentos e pensamentos. Eram soltos, emendados e mal emendados, com o desenho truncado e torto, uma confusão, um turbilhão, que me cegava e ensurdecia.

(Dom Casmurro)

a menina que não vivia sonhos.

Faço promessas malucas tão curtas quanto um sonho bom.
Se eu te escondo a verdade, baby, é pra te proteger da solidão.
Faz parte do meu show, meu amor.
(Cazuza)


"O que eu mais sinto é que eu quero abraçar uma árvore, ela quer abraçar um bosque inteiro com árvores, arbustos, flores, gramas etc...
(...)
"Eu acredito em finais felizes, ela sempre diz isso de mim. Já eu não sei se ela prefere os finais felizes, ou gosta de tê-los somente nos sonhos, onde eles são mais perfeitos e bonitos, não sei se ela tem medo de torna-los reais, fazendo com que eles literalmente deixem de ser 'um sonho bom'."
(Ela)


"Só agora eu sinto que as minhas asas eram maiores que as dele, e que ele se contentava com os ares baixos; eu queria grandes espaços, amplitudes azuis onde meus olhos pudessem se perder e meu corpo pudesse se espojar sem medo nenhum."
(Caio F.)

terça-feira, 18 de maio de 2010

o que se perde enquanto os olhos piscam?

pronde vai toda tampa de caneta?
todo recibo de estacionamento? todo documento original?
isqueiro, caderneta, a camiseta com aquele sinal...
pronde vai... toda palheta?
pronde foi... todo nosso carnaval?

pronde vai todo abridor de lata?
toda carteira de habilitação?
recado não dado, centavo, cadeado?
todo guarda-chuva pra fuga pro temporal!
pronde vai... o achado, o perdido?
eu não sei, veja bem... não me leve a mal...

pronde vai todo outro pé de meia,
carteira, brinco e aparelho dental?
pronde vai... toda diadema?
recibo, receita e o nosso enredo inicial?
pronde vai toalha de acampamento,
presilha, grampo, batom de cacau
elástico de cabelo, lápis, óculos, clips, lente de contato?
a nossa má memória!
a denúncia no jornal?
pronde vai... aliança, chaveiro, chave, chinelo e o controle pra trocar canal?

pronde vai o solo que não foi escrito?
labareda nesse labirinto,
o instinto, o reflexo, sem seguro...
o coro do socorro! o lançamento oficial!
pronde vai... a culpa da cópia?
pronde foi... a versão original!?

pronde vai a bala que se disparô?
o indício da gripe que disseminou
a culpa no porco no bicho animal?
a firmação do pulso! o discurso radical!
o troco em moeda... a lição da queda
pronde foi... nosso humor e moral?

pronde vai todo nosso desalento?
morre brisa, nasce vendaval
pronde vai a reza vencida pelo sono?
ela vale? me fale, me dê um sinal!

São Longuinho, São Longuinho,
me fale, me dê um sinal...

pra onde foi?
o canhoto, benjamim de tomada
passaporte, número de telefone, certidão, registro com foto,

simpleza, prudência, clareza... consideração!
autenticidade, compaixão, certeza...
a urgência, o acaso e a ocasião,
a postura, o primeiro nome, o amuleto, a muleta,
a raiva, a régua, a borracha, o erro, a rasura, a razão.
carregador de bateria, euforia, a perda, a pendência, o pudor, o perdão!
extrato, a ponta, a conta nova, a cola da prova e a extensão,
o estímulo, exemplo, a voz dissonante...
a coragem do meu coração!

São Longuinho, São Longuinho
me fale, me dê um sinal!
São Longuinho, São Longuinho
pra onde foi a coragem do meu coração?





chorei pouco no show...